Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados,1 foi uma das bem-aventuranças prometidas por Jesus no imortal Sermão do Monte. Não resta dúvida, um ensino eminentemente revestido de esperança, pois ninguém deseja sofrer eternamente, nem seria este o desejo do Criador, pois Ele nos ama incondicionalmente.
Entretanto, considerando que Jesus não determinou condições para que o aflito desfrute dessa bem-aventurança – uma lei de Deus, certamente –, não parece razoável ajuizarmos sobre quais aflitos seriam bem-aventurados, como sugerido no título deste texto, pois, sem nenhum requisito estabelecido, só poderíamos concluir: todos os aflitos serão bem-aventurados, sem exceção.
De fato, não há Espírito na Criação que não receberá as benesses de ser bem-aventurado, pois a meta fatal é a perfeição relativa.
Mas, antes de refletirmos um tanto mais sobre essa questão, é de se observar que o planeta ainda é de provas e expiações e, desde que Jesus proferiu o Sermão do Monte, essa ínfima parte da Humanidade universal fez escassos progressos morais. Dessa forma, é de se esperar que ainda haja incontáveis aflições, de todos os tipos. Aliás, se alguém indagasse quem não foi aflito, não está aflito no presente e, finalmente, não se afligirá no futuro, cremos que, certamente, ninguém se apresentaria para dizer: Eu nunca me afligi, não estou aflito no momento, e, seguramente, não me afligirei no futuro, não importa qual seja a extensão desse futuro.
Sendo assim, é certo que ainda haverá muito choro e ranger de dentes, ao menos por enquanto.
Como conclusão, essa particular bem-aventurança perderia o sentido, visto que todos são ou estão aflitos. Assim, por qual razão ensinar que todos serão consolados? Como bem entender essa bem-aventurança? Será que existem aflitos diferentes de outros aflitos e apenas alguns encontrarão consolo?
A resposta a essa última indagação é afirmativa. Embora as causas das aflições sejam comuns e seus efeitos sejam conhecidos por todos, a forma como se porta o aflito diante de suas particulares aflições não é a mesma, sendo essa atitude específica a chave para entender o ensino.
É preciso saber sofrer para se alcançar a consolação, uma vez que, se todos sofrem, o modo como se encara a aflição deve diferenciar os aflitos.
Parece-nos que para todos os aflitos essa consolação seria muito bem-vinda no menor tempo possível, não é mesmo? Afinal, quem deseja permanecer aflito?!
Assim, como Jesus não estabeleceu um prazo para se alcançar essa bem-aventurança e, consequentemente, a tão desejada consolação, poderíamos indagar o que o aflito poderia fazer, e talvez ainda não faça, para encurtar esse tempo. Além disso, o que podemos fazer para atenuar, extinguir e não criar aflições, visto que a consolação não virá de imediato?
Há três linhas de ação que podemos trilhar para construir um cenário mais tranquilo, relacionadas ao capítulo das aflições.
A primeira tem por objetivo atenuar as consequências das dificuldades. A ação correspondente seria saber sofrer. Sim, há uma sabedoria associada ao sofrimento, ou seja, é preciso evitar reclamações e blasfêmias, jamais acusar a Deus de O ter esquecido. Dessa maneira, a aflição perde intensidade, fica mais fácil atravessar as tempestades do dia a dia. E mais, agir com paciência ativa, resignação construtiva, submissão dinâmica às inesperadas situações indesejadas surgindo aqui e ali. Em uma palavra: uma fé com obras.
A segunda visa extinguir a aflição, na raiz. Para tanto, seria preciso identificar a causa. Contudo, há muitas aflições que possuem origem em existências passadas. Essas não se apagam mais, sendo preciso atravessá-las na íntegra, ou fazer o bem em quantidade suficiente para anular a multidão dos pecados. Por outro lado, se a aflição é resultado de ações da existência presente, seria preciso interromper o que fazemos e que está gerando a aflição.
A última seria direcionada a não criar aflições para o futuro. Essa providência é possível ser feita, desde que o indivíduo se esmere em não errar mais. Lembremos do Vá e não peques mais!2 Para tanto, é preciso vigiar e orar e, para bem vigiar, seria necessário estudar para entender o que vigiar e a quem vigiar.
De modo a nos tranquilizarmos um pouco mais, é fundamental saber que nada ocorre por acaso: nenhuma doença, desastre financeiro, desilusão sentimental, quaisquer infortúnios a nos alcançar, nenhum deles surge sem a existência de uma razão perfeitamente justa e necessária ao nosso aprimoramento.
Se a incorretamente chamada desgraça nos atinge, levanta-se em nossa caminhada, ou é uma prova, muitas vezes solicitada, ou é uma expiação, consequência direta de nossos deslizes passados ainda não resgatados.
Cabe destacar uma orientação sobre a bem-aventurança. Em O Livro dos Espíritos, o Codificador registrou em referência à posição dos Espíritos puros junto à Divindade: […] Não creias, porém, que os Espíritos bem-aventurados estejam em contemplação por toda a eternidade. Seria uma felicidade estúpida e monótona. […]3 Ou seja, alcança-se a bem-aventurança para trabalhar mais, não para descansar eternamente.
Concluindo, os embaraços surgem sempre em nosso favor, Deus não nos dá fardo mais pesado do que possamos carregar, pois todas as atribulações visam à promoção de nossa evolução.
Referência:
1 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 5, vers. 4.
2 Op. cit. João. cap. 8, vers. 11.
3 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3ª edição Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2007. pt. 4, cap. II, q. 969.
Fonte: Jornal Mundo Espírita OnLine por Rogério Miguez
Escuta, alma querida,
Quando a prova te alcança
E o sofrimento te golpeia a vida,
Impondo-te cansaço e insegurança;
Quando a aflição te cerca e te subjuga,
Portas a dentro de teu próprio ser,
Sem apelos à fuga
Em que te possas esconder,
Indagas, quase sempre,
De ânimo frustrado
Revelando revolta amarga e triste:
— Se Deus é Amor Eterno e Ilimitado,
Por que razão a dor existe?
Por que ao sonho se seguem, com frequência,
O fel, o desengano, a desventura
Que nos induzem a existência
Ao vasto espinheiral
Em que a nossa esperança se enclausura?
E guardando-te, a sós, sob angústia mortal,
Certas vezes, de anseio em desalinho,
Quererias fugir de teu próprio caminho…
Entretanto, alma boa,
Se algo te feriu, não te agastes, perdoa…
E, sobretudo, raciocina
Que a dor lembra o esmeril da Lei Divina
Que, em nos tocando, nos aperfeiçoa.
Tudo o que te garante o próprio alento
Passou por disciplina e sofrimento.
Sem que a ovelha aceitasse os golpes da tosquia,
Não terias a lã que te guarda o calor;
Sem que o minério padecesse um dia
O fogo abrasador,
Não dispunhas da casa, em fina arquitetura,
Sobre vigas leais de sólida estrutura;
Sem árvores tombando, a rude corte,
Não fruías na própria residência
O ambiente ideal em que se te conforte
A energia precisa às lutas da existência;
A dentes de serrote, a natureza
Formou, em teu auxílio, o refúgio da mesa,
E o trigo que passou pela trituração,
Em qualquer tempo, é a base de teu pão.
Não acuses a dor que te procura
A fim de preparar te a grandeza futura,
Sem ela que nos frena e regenera,
Estaríamos nós, provavelmente;
Na condição da fera
Sob a selvageria permanente.
Por fim, alma querida, considera:
De heróis que já tivemos,
Almas gigantes na sabedoria,
Corações a brilhar, nos ápices supremos
Da beleza imortal que se irradia
Dos tesouros do amor.
De todos os apóstolos da História
Que apontaram a Vida Superior
De que o mundo conserva algum indício,
Aquele que nos deu, constantemente,
O sentido da dor
Por fonte renascente
De ascensão e nobreza, vida e luz,
Com bases sobre o próprio sacrifício,
Esse herói foi Jesus.
Fonte: Caminhos do amor – Maria Dolores | Cap. 17 – A caminho do Alto