Reflexões sobre a tristeza

Os sentimentos humanos expressam-se de variada forma, com flutuações que determinam o equilíbrio, a saúde mental e emocional ou os estados patológicos, necessitados de tratamento.

A tristeza não é o inverso da alegria, mas a sua ausência momentânea.

É um estado que conduz à reflexão, e não ao desinteresse pela vida; à contemplação dos valores vividos, e não à melancolia, mas à análise das necessidades reais ainda não expressadas…

Ante a temerária depressão generalizou-se o conceito de que a tristeza, a melancolia e a antiga acédia são todas a mesma expressão do sentimento.

A tristeza, porém, é um fenômeno natural que ocorre com todas as pessoas, mesmo aquelas que vivenciam os mais extraordinários momentos de alegria. Pode ser considerada como uma pausa para a compreensão da existência, avançando no rumo do júbilo.

A melancolia é um estado de saudade de algo conhecido e perdido ou desconhecido e não experimentado que, em se prolongando, pode transformar-se em depressão.

Enquanto a tristeza convida à viagem interior, propondo avaliação de comportamento e consideração de valores aceitos, a melancolia normalmente é resultado de algum tipo de perda, incluindo-se a desencarnação de algum ser querido. No início, é natural que ocorra, no entanto, em se prolongando por algumas semanas converte-se em transtorno depressivo, que necessita de competente tratamento.

A sociedade contemporânea estabeleceu que a alegria deve ser um estado constante de todos os indivíduos, significando êxito, realização nos relacionamentos, triunfo social e econômico, conquista de posição relevante. Em consequência, há um estereótipo representando alegria, mesmo quando o coração chora e o espírito se debate em conflitos e dores não exteriorizados.

Ninguém pode viver em alegria permanente, o que seria igualmente patológico, uma forma de alienação da realidade, que sempre exige seriedade, esforço e trabalho, a fim de ser vivida em forma edificante.

A frivolidade apresenta-se, quase sempre, em alegria leviana, irresponsável, porque desvia a pessoa das responsabilidades que lhe dizem respeito, flutuando na indiferença entre os deveres e os prazeres.

Não se pode nem se deve afivelar a máscara da alegria televisiva na face, demonstrando um júbilo que não é real, porque o próprio organismo, a cada momento, passa por alterações que modificam o humor, convidam ao silêncio, à reflexão, ao refazimento de atitudes.

Quando se tem a preocupação de exteriorizar alegria contínua, tal fenômeno caracteriza insegurança, portanto, interesse de teatralizar as emoções.

É normal a tristeza e, algumas vezes, benéfica, pois que faculta um mecanismo de retrocedimento mental para revisão e análise em torno de acontecimentos e vivências que necessitam ser considerados.

Pode acontecer igualmente que, de um instante para o outro, perceba-se que aquilo que se está fazendo não é exatamente o que se gostaria de realizar, abrindo espaço para uma certa tristeza, que irá contribuir para refazer experiências e viver-se conforme os novos padrões emocionais.

A felicidade expressa-se no conjunto tristeza-alegria, na condição de ponte que une distâncias aparentemente opostas.

Não são poucos aqueles que possuem os preciosos recursos econômicos, os triunfos sociais e políticos, religiosos e artísticos, ou de outro tipo, experimentando solidão e vazio existencial, que têm origem em reencarnações anteriores.

Não possuindo estrutura moral segura, esse paciente foge para os alcoólicos, as drogas aditivas, o sexo apressado, mantendo o riso e a falsa alegria, parecendo realizado, para logo tombar em estados dolorosos de melancolia e depressão.

* * *

Na cultura grega, a melancolia era considerada ora como punição dos deuses, noutras circunstâncias como condição necessária para receber-lhes a inspiração.

Aristóteles, por exemplo, narra que Sócrates e Platão periodicamente experimentavam-na, sendo então por eles inspirados.

Consideramos, neste texto, a melancolia como a tristeza, o recolhimento, a necessidade de silêncio interior, por cujo estado mais facilmente sintonizavam com o pensamento espiritual procedente das Esferas superiores, dos Espíritos nobres que os orientavam.

Leon Tolstoi, o célebre escritor russo, vivenciou uma grande tristeza, que lhe exigiu reflexões profundas em torno do existir, do porvir, do viver. Encontrando-se na melhor fase da sua carreira de escritor, amado por uma família feliz e conhecido praticamente em todo o mundo, respeitado e rico, repentinamente começou a contestar a própria existência, tendo impulsos quase suicidas, que lutou para evitar e corajosamente superou. Não chegou a entrar em depressão, mas a considerar que os valores até então aceitos e disputados eram vazios, não lhe conseguindo mais preencher o íntimo com reais alegrias.

Depois de grande interiorização, leu o Evangelho de Jesus e nele encontrou a resposta, a verdadeira alegria, mudando o modus vivendi, repartindo a fortuna, os bens, assumindo postura simples e o comportamento de cidadão modesto, tornando-se irmão do seu próximo e dando lugar a uma verdadeira revolução, em face daqueles que o seguiram nessa decisão.

Perseguido pela religião dominante na Rússia, como herege, declarou sua crença no Deus justo, de amor, de misericórdia e de justiça, Pai de todas as criaturas que tinham o mesmo direito de ser felizes na Terra.

Quando o Espírito, que tem sede de paz e de plenitude, descobre que está engessado nos compromissos sociais, atrelado ao relógio que lhe comanda todos os momentos, obrigado a comportar-se de maneira padronizada, livre, mas escravo das imposições dos multiplicadores de opinião da mídia mercantilizada, mais interessada nos mecanismos do consumo do que na criatura em si mesma, desperta desse letargo, dessa ilusão que se permite, experimenta tristeza pelo tempo malconduzido.

Trata-se de uma tristeza saudável e enriquecedora essa que se manifesta, não como infelicidade, mas como terapia para o excesso de risos e de aparências…

A preocupação que toma conta da sociedade contemporânea em parecer é tão grande, que se estabeleceram padrões para a beleza, o comportamento, a alimentação, os relacionamentos, as posturas do triunfo e a conquista dos minutos de holofotes…

A tristeza, portanto, tem vez em qualquer comportamento moral, social, religioso, individual, trabalhando o indivíduo para a renovação interior e a conquista de valores mais profundos e significativos do que os existentes e consumidores.

Nada obstante, não se deve cultivar a tristeza como necessária para o discernimento a cada instante ou em toda parte.

Fenômeno psicológico transitório, deve ceder lugar à reflexão, ao despertamento e à valorização dos tesouros morais, culturais e espirituais.

A tristeza sem lamentação, sem queixas, sem ressentimentos é, pois, psicoterapêutica, de vez em quando, para a conquista real do equilíbrio, com discernimento do que é lícito e deve ser conquistado.

* * *

Muitas vezes Jesus chorou de tristeza contemplando a loucura humana, o seu desequilíbrio, o desinteresse pelo verdadeiro e a ambição pelo mentiroso.

Sorriu, também, quando choraram aqueles que O foram ver no sepulcro, então ressuscitado, como houvera antes muitas vezes chorado.

Mergulhou em tristezas, em muitas ocasiões, quando, por exemplo, buscou o deserto para meditar, quando incompreendido pelos exploradores do povo, quando encontrou o Templo transformado em mercado de interesses inferiores, quando no Horto das Oliveiras…

A tristeza era-lhe familiar, embora Ele houvesse trazido as boas novas de alegrias para a humanidade.

Não cultives a tristeza nem fujas dela, aceitando-a, quando se te apresentar e retirando o melhor resultado da oportunidade de reflexão que te proporcione.

Com esse comportamento estarás experiênciando atitudes renovadas.

Fonte: Livro Atitudes Renovadas, Cap. 5, Medium: Divaldo Pereira Franco pelo Espírito: Joanna de Ângelis


Há, sim, a tristeza construtiva — aquela que nos impulsiona para a Vida Superior, encaminhando-nos para o trabalho da melhoria íntima, perante a sede de ascensão espiritual.

Existe, porém, a outra — a tristeza destrutiva que se traja de luto, por dentro do coração, todos os dias, espalhando desânimo e pessimismo onde passa.

Observa a ti mesmo a fim de que te imunizes contra semelhante doença da alma.

Toda vez que comentamos nossos problemas, exagerando-lhes o tamanho ou dramatizando as dificuldades que nos chegam à existência;

sempre que tomamos o tempo alheio a fim de recordar sofrimentos passados que a Providência Divina já mandou apagar, em nosso benefício, com a esponja do tempo;

em todas as situações nas quais nos pomos a exaltar os preconceitos próprios, desconsiderando a posição e a experiência dos semelhantes;

e, na generalidade dos casos em que nos pusermos a lamentar dissidências e desacordos, contendas e mágoas, estamos afastando de nós mesmos os melhores amigos, através da amargura e do ressentimento que destilamos com as nossas palavras.

Naturalmente, cautelosos, esses companheiros preferem distância à partilha indébita de nossas aversões e frustrações, antagonismos e queixas, embora, sempre que generosos e leais, estejam claramente dispostos a apoiar-nos na restauração da própria harmonia.

Compreendamos que ninguém estima a permanência num espinheiro e nem escolhe vinagre para brindar os laços diletos, e saibamos fornecer bondade e paz, entusiasmo e otimismo aos que se aproximem de nós, porquanto não há quem não necessite de alguém para executar os deveres que a vida lhe preceitue.

Para isso, nós que sabemos rogar a Deus proteção e bênção, aprendamos igualmente a pedir à Divina Providência nos conceda a precisa coragem para silenciar desapontamentos e lágrimas, de maneira a doar paz e alegria, segurança e consolo aos outros, tanto quanto esperamos esses benefícios dos outros em auxílio a nós.

Fonte: Livro Coragem, Cap. 21, Medium: Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel